Benvindos ao meu blog. Só mais um para aumentar a comunidade do blogger.
Como o tempo livre é muito e porque adoro ser irónico, (pois afinal de contas o tempo até nem é muito,
mas se o dissesse já não estava a ser irónico e, como acabei por dizê-lo à mesma, acabo por ser irónico ao afirmar que não o era)
é apenas mais um novo projecto na minha vida. Espero que gostem...

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Némesis: Segunda Desmistificação

A imaginação é, talvez, o factor mais determinante no avanço científico. Actualmente o paradigma do conhecimento recorre a muitas teorias enviusadas para justificar o comportamento natural das coisas. Só depois de imaginadas é que se passa à acção da observação e experimentação para refutá-las ou comprová-las… Para quem as imaginou, nada há a perder, a não ser o tempo e os recursos financeiros gastos durante essa observação caso a teoria não se venha a comprovar. Mas, no caso contrário, esse “quem” verá o seu nome escrito para sempre na história da ciência no nosso planeta. Um exemplo perfeito deste paradigma é a teoria de Némesis, a estrela companheira do nosso Sol. Para quem nunca ouviu falar, Némesis, se existir, será uma estrela denominada por Anã Castanha e orbita o nosso Sol numa órbita extremamente longínqua e elíptica. Apesar de nunca ter sido observada, a existência de Némesis justifica um dos maiores mistérios da paleontologia.

O COMEÇO – Uma explicação credível por ser tão viável

Tudo começou na tentativa de justificar as grandes extinções do passado, nomeadamente, a extinção do final do Cretáceo conhecida, sobretudo, pela aniquilação dos dinossauros há 65 milhões de anos atrás. Pai e filho, Luís e Walter Alvarez, ambos professores na Universidade de Berkeley, propuseram então uma justificação para tais acontecimentos baseados em amostras de estratos do solo que continham uma fina camada de irídio precisamente na fronteira entre o final do Cretáceo e início do Terciário. Essas amostras foram recolhidas em vários locais sugerindo então o depósito de irídio no solo em toda a superfície do planeta. Ora o irídio, o elemento 77 da tabela periódica, é um metal de transição muito raro no nosso planeta mas abundante na constituição dos cometas. A conclusão, ainda que não se possa comprovar, é bastante convincente: um cometa colidiu com a Terra e originou a extinção dos dinossauros. Mas a mente humana nunca se deixa saciar por uma resposta… 
Ora se a queda de um cometa do planeta originou a extinção do final do Cretáceo, porque não justificar da mesma forma as outras grandes extinções do passado? Na realidade a extinção dos dinossauros não foi a maior extinção em massa ocorrida no nosso planeta. Há cerca de 250 milhões de anos uma enorme extinção em massa aniquilou mais de 90 % das espécies vivas (animais, vegetais, algas, bactérias e fungos). Julga-se tratar-se da maior extinção de todos os tempos, assinalando-se desta forma, o final do período Permiano e o início do Triássico. Mas existem ainda mais extinções sugeridas pela paleontologia no nosso planeta:


O que se retrata no quadro anterior é que as seis maiores extinções de que há indícios (à excepção da extinção do final do Ordoviciano) adequam-se a intervalos de 32,5 milhões de anos. Outros estudos sugerem períodos levemente mais curtos mas todos eles se enquadram nestas ordens de grandeza). Para encontrar o valor encontrado também retirei da regressão a extinção do final de Ordoviciano (que resultou num desfasamento de mais de 10 milhões de anos relativos à segunda grande extinção prevista pelo padrão) pois, de todas as extinções, é a mais passível de não ter sido causada pelo impacto de um cometa, mas sim por uma onda de raios gama que atingiu o nosso planeta provenientes de uma explosão estrelar. Mas a questão não é o valor do intervalo mas sim a existência ou não de um padrão regular: As extinções no nosso planeta tendem a repetir-se em intervalos de 32,5 milhões de anos (± 5 ma) ou em intervalos múltiplos deste.
A ser verdade, que feito da Natureza provocaria a regularidade de tais eventos?

AS LEIS DE KEPLER – O cenário mais regular da natureza

Apesar de, à primeira vista, o tópico que se segue não estar minimamente relacionado com as grandes extinções do passado e com as regularidades que nelas se verificam, vamos mais tarde perceber como estes dois assuntos podem estar interligados, infelizmente, de uma forma bastante aterradora. As Leis de Johannes Kepler (1571 – 1630), astrónomo alemão que as desenvolveu, são três simples postulados que descrevem as órbitas de translação de objectos no espaço, nos quais se enquadram a órbita do nosso planeta em torno do Sol, ou de todos os objectos do Sistema Solar ou até mesmo da Lua em torno do nosso planeta. São elas:

• PRIMEIRA LEI: Os planetas e demais objectos do sistema solar descrevem órbitas elípticas em torno do Sol, que se situa num dos focos da órbita

Para quem não sabe, uma elipse é um género de circunferência “achatada” definida pelos pontos cuja soma a dois pontos dados (focos da elipse) é constante e maior que a distância entre eles. Para quem tem algumas dificuldades em matemática, vai certamente encontrar dificuldades também em interpretar, à primeira, o que está escrito na frase anterior. Para melhor compreender o significado de elipse, o melhor é mesmo fazer um desenho.


Na figura (do lado esquerdo) temos, a azul, os ponto F¹ e F² que representam os focos da elipse. Se considerarmos então P¹, que pertence à elipse, vemos a verde os segmentos de recta que liga P¹ a ambos os focos. A soma dos comprimentos desses dois segmentos de recta é sempre a mesma, qualquer que seja a posição do ponto P¹ e é portanto igual à soma dos comprimentos dos segmentos laranja (para P²) e é também igual à soma dos comprimentos dos segmentos roxos (para P³). Por norma, quanto mais afastados estão os focos um do outro, mais alongada será a elipse. No caso da órbita da terra (e nos planetas em geral) as órbitas são quase circulares uma vez que os focos estão relativamente perto um do outro. Para a órbita terrestre, os focos estão afastados por uns meros cinco milhões de quilómetros!! Muito pouco, sobretudo se compararmos à distância média da Terra ao Sol: 150 milhões de quilómetros… O Sol ocupa a posição de um dos focos da órbita elíptica da terra (F¹ na figura – lado direito). O outro foco, F², não passa de um ponto no espaço. É por estes motivos que a Terra tem um ponto da sua órbita mais próximo do Sol denominado por periélio (distância da Terra ao Sol no periélio: 147,1 milhões de km) e outro mais afastado denominado por afélio (distância da Terra ao Sol no afélio: 152,1 milhões de km).

• SEGUNDA LEI: O segmento de recta que une um objecto ao sol descreve, em tempos iguais, secções com a mesma área

Para a generalidade, a consequência desta lei é mais fácil de entender do que a sua descrição. Mesmo assim vou tentar explicar. Basta, para isso, considerar na órbita da terra, duas secções elípticas com a mesma área.


Na imagem da esquerda temos duas secções, uma verde e outra azul, que têm a mesma área. Note-se que a distância percorrida pelo nosso planeta para descrever a secção a verde é maior do que distância para descrever a secção azul. A segunda Lei de Kepler afirma então que, uma vez que as secções têm a mesma área, os tempos que a terra demora a percorrer as duas distâncias é o mesmo, o que significa que a velocidade de translação da Terra não é a mesma em todos os pontos da sua órbita: perto de periélio a Terra desloca-se a uma velocidade superior àquela a que se desloca perto do afélio. Se tal não fosse, ao afastar-se do afélio, o nosso planeta não resistiria à força gravítica do Sol e acabaria por colidir com o nosso astro-rei. Por outro lado, ao afastar-se do periélio, a sua grande velocidade poderia ser suficiente para escapar à força gravítica do sol e afastar-se-ia deste para sempre (como se pode ver à direita na figura anterior).

• TERCEIRA LEI: Os quadrados dos períodos de translação dos objectos são proporcionais aos cubos dos eixos maiores das suas órbitas

O eixo maior na órbita do planeta Terra é a distância entre o periélio e o afélio. A regra é geral para os demais objectos do sistema solar (tendo em conta cada uma das suas respectivas órbitas, naturalmente). Para o caso do planeta Terra, essa distância é sensivelmente igual a 300 milhões de quilómetros. O seu período de translação é igual, como se sabe a aproximadamente 365 dias, isto é, um ano. Ora a razão (ou o quociente) entre (1 ano)² = 1 e (2 UA)³ = 8 é igual para todos os objectos do sistema solar. Essa razão, a que vamos chamar k, é igual a 0,125 ano²/UA³ aproximadamente. Vamos, neste post, utilizar a unidade ano² por UA³ para facilitar as conclusões.

Desta forma se descrevem assim os movimentos dos objectos em torno do Sol quer os conheçamos quer não!

O OBJECTO ESTRANHO – Com 32,5 milhões de anos desde a última vez que o vimos

Porque razão os objectos responsáveis pelas grandes extinções massivas do passado colapsam sobre a terra com semelhante regularidade? A pergunta continua desprovida de resposta. Mas, em 1985, os astrónomos Whitmire e Matese, sugeriram a existência de uma estrela companheira do nosso Sol com uma órbita extremamente elíptica que, ao aproximar-se do seu apogeu impulsionaria milhões de cometas em direcção ao Sol, alguns dos quais cairiam sobre o nosso planeta. A ideia não é assim tão descabida. Graças às Leis de Kepler podemos então encontrar as características de tal objecto, pelo menos no que diz respeito à sua trajectória em torno do Sol. Na terceira lei de Kepler, fazendo k = 0,125 ano²/UA³, ao substituirmos o período de translação por 32,5 milhões de anos vamos encontrar o valor aproximado de 3,22 anos-luz para o comprimento do eixo maior da órbita do objecto (outros resultados foram encontrados consequentes de outros valores para os períodos de translação de acordo com a regularidade obtida nas análises às extinções em massa). Para quem está familiarizado com as unidades astronómicas de distância sabe que 3,22 anos-luz é uma distância muito grande até mesmo em relação ao nosso Sistema Solar interior. Esse objecto nunca estaria mais perto do Sol do que qualquer um dos seus conhecidos planetas. Se tal acontecesse a sua velocidade de translação no periélio seria monstruosa (pela segunda lei de Kepler). Especialistas sugerem que a distância mínima ao Sol do hipotético objecto teria que ser sensivelmente igual a um ano-luz:


No esquema anterior encontra-se o nosso sol e o hipotético objecto (a castanho). Como referência encontra-se também a estrela mais próxima de nós, a Próxima Centauri, que fica apenas a 4,2 anos-luz de distância. O objecto fictício, pelo menos por enquanto, gira em torno do Sol numa zona chamada Nuvem de Oort, a região limiar do nosso sistema solar. Essa zona situa-se a um ano-luz de distância e prolonga-se até aos 3 anos-luz. Nela encontra-se biliões de objectos, sobretudo cometas que orbitam em torno do nosso sol, cada uma com a sua trajectória específica. Nenhum destes cometas cruza o nosso sistema solar interior (a zona dos planetas), a não ser… O objecto em questão que vagueia hipoteticamente pela Nuvem de Oort pode ser muito grande. Pode ser até 10 vezes maior que Júpiter, o maior planeta do nosso sistema solar (presumivelmente). Com estas dimensões quase não há dúvidas tratar-se de uma estrela. Um outro sol companheiro do nosso… Por não ter sido ainda detectada, se for uma estrela, ela será uma Anã Castanha. Se existir ela já terá um nome… Temível… O seu nome é Némesis, em tributo à deusa grega da vingança, filha da deusa da noite Nix e do titã Tétis.
Némesis é então a estrela Anã Castanha do nosso sol. Uma Anã Castanha, ou Estrela Falhada, é uma estrela idêntica em tudo às outras estrelas convencionais a não ser no tamanho. Por ser demasiado pequena, o seu campo gravitacional no seu núcleo não é forte o suficiente para iniciar o processo de fusão nuclear – a reacção que ocorre nas estrelas ditas “normais” e que lhes confere o seu brilho “glamoroso”. Por esses motivos, as Anãs Castanhas são estrelas muito débeis, muito pouco brilhantes e muito pequenas. São, portanto, muito difíceis de detectar. A ideia do nosso sol ter uma estrela companheira não é assim tão descabida. Na realidade a maior parte das estrelas que vemos no céu nocturno são sistemas múltiplos de estrelas (cerca de 2/3). O que, na realidade, é difícil é encontrar uma explicação para a órbita exageradamente elíptica de Némesis.
Na minha opinião, contudo, se Némesis existir, não será estrela alguma. Será antes um cometa ou um asteróide invulgarmente grande. Como decerto sabe, Plutão foi excluído como planeta e simplesmente classificado como objecto anormalmente grande da Cintura de Kuiper, um outra região do nosso sistema solar para lá de Neptuno mas, no entanto, cem vezes mais próxima de nós que a Nuvem de Oort. Este tipo de anormalidades não é assim tão residual quanto pensamos. Na realidade acontecem com mais frequência do que um modelo de universo organizado e direitinho nos dá a entende. Talvez até seja muito pouco prudente chamar-lhes de anormalidades… Némesis pode muito bem ser um asteróide de grandes dimensões. Um planeta até! E um planeta rochoso… No nosso sistema solar, os planetas interiores são rochosos (os de menores dimensões, entre os quais se encontra a Terra) ou gasosos (os de maiores dimensões). No entanto, todos os dias descobrem-se novos planetas noutros sistemas solares, alguns dos quais bastante grandes e rochosos… O nosso universo alberga todos os tipos de todas as coisas – para quem gosta de ser pertinente, os planetas descobertos nas órbitas de estrelas distantes denunciam a sua presença quando “passam” à frente da sua estrela mãe; apesar de estar mais perto, Némesis é mais difícil de detectar sem um fundo de contraste que acuse a sua presença. Mas até comprovarmos a sua existência, Némesis continuará a ser um objecto hipotético, quer seja uma Anã Castanha ou não!

O PODER DA ATRACÇÃO – Némesis dispara milhões de balas contra nós

Tal como o sol e a maior parte dos planetas do sistema solar (e até Plutão), muitos objectos do céu albergam outros objectos mais pequenos nas suas órbitas. Tal acontece devido à Força da Gravidade. Dois corpos, desde que possuam massa, atraem-se mutuamente. É esta simples lei que nos prende à superfície da Terra. A Lei da Gravidade está tão presente nas nossas vidas quotidianas que nem sequer damos por ela no dia-a-dia. Mas ela está lá… E é ela que rege todos estes movimentos. A lei que faz com que regressemos à terra depois de dar um salto, é a mesma que faz com que um corpo orbite em torno de outro. Pode facilmente criar uma pseudo-órbita com as suas próprias mãos. Basta, por exemplo, atirar um seixo a um riacho. Por alguns instantes o seixo orbita em torno da terra. No entanto a sua velocidade não é suficiente para resistir à atracção gravitacional do nosso planeta, pelo que acaba por cair. Para combater a força da gravidade e colocar um objecto em órbita é necessário viajar a uma velocidade superior a 11 quilómetros por segundo à superfície da terra. Esta é a velocidade que um objecto terá que alcançar para ser colocado em órbita (não é o caso dos foguetões que são propulsionados e podem deixar o campo gravitacional da terra desde que haja combustível suficiente para o efeito). Uma vez em órbita, um corpo está constantemente a “cair” sobre o outro. A Lua, por exemplo, “cai” sobre a Terra constantemente, mas, ao contrário do seixo que atiramos ao rio, não chega mesmo a colapsar sobre o nosso planeta pois a sua velocidade (que nunca diminui pois, no espaço, não existe atrito do ar) é suficiente para permanecer a 384.400 km da superfície da terra.
É esta mesma força que também é capaz de mudar a trajectória de um objecto. Um pequeno asteróide, se passar perto do nosso planeta, por exemplo, pode ver a sua trajectória alterada por acção gravitacional deste, como que, se por instantes, orbitasse o nosso planeta.


Em geral, quanto mais se aproximar o asteróide do nosso planeta, maior é a curvatura provocada pela gravidade na sua trajectória. Se se aproximar demasiado, então o asteróide acabará por colidir com a superfície terrestre. Ora, na Nuvem de Oort pode ocorrer algo similar com Némesis e milhões de cometas podem ser disparados na direcção do sol. Perto do seu Apogeu isso representaria um grande risco para o nosso planeta pois, ao contornar Némesis na direcção do centro do sistema solar, não haveriam mais obstáculos significativos até ao disco planetário.


De entre milhões de cometas influenciados pela acção gravitacional de Némesis na direcção do nosso sol, alguns, eventualmente de grandes dimensões, acabaria por colidir com a terra provocando grandes extinções em massa. E está, desta forma exposta uma das possíveis explicações para os intervalos aparentemente regulares das grandes extinções do passado no nosso planeta.

PARA TERMINAR…

A teoria da existência de Némesis tende a cair em descrédito, sobretudo por nunca se terem encontrado indícios da sua presença. A comunidade científica cada vez mais está consciente que, se Némesis existisse, então já teria sido detectada. Por outro lado, se realmente Némesis for um asteróide de grandes dimensões ou até mesmo um planeta, pode escapar-nos facilmente ao olho nocturno, por muito potente que seja o telescópio utilizado. Em todo o caso, por enquanto, Némesis não passa de um pensamento humano, quer enquanto estrela companheira do sol quer enquanto deusa da vingança. E, por isso mesmo, talvez devêssemos partir em busca de outros modelos que justifiquem a regularidade periódica das extinções massivas que ocorrem no nosso planeta. Apenas gostaria ainda de referir que, se prestou atenção ao primeiro gráfico deste post, decerto reparou na possível ocorrência de uma grande extinção no presente. Se leu o post anterior, certamente que será tentado a relacionar as duas conclusões. No entanto os dois temas nem sequer se devem comparar. O estudo feito no post anterior relacionou eventos dos últimos 680 000 anos. Por outro lado, neste post trataram-se períodos muito maiores, na ordem dos 600 milhões de anos. Caberiam quase mil períodos do post anterior no período considerado neste. Os dois temas são muito difíceis de conjugar, senão mesmo, absurdamente conjugáveis!



sexta-feira, 25 de junho de 2010

Depois de 2012… Chega 2013!

 E, subitamente, o mundo cessa a sua actividade mental conjunta para reflectir sobre a data da moda: 21 de Dezembro de 2012. O Sol, o planeta Terra e o centro da nossa galáxia alinhar-se-ão sobre uma linha recta perfeita… O nosso planeta, que gira em torno do Sol e que, juntamente com este, gira também em torno do nosso bairro celestial na sua dança cósmica, finalmente encontram-se em fila indiana para pressagiar um final tremendo e avassalador. O mundo deixará de ser como o conhecemos e tudo o que de catastrófico possa acontecer, acontecerá no solstício de Inverno de 2012. O acontecimento foi previsto pelos Maias que assinalaram no seu calendário, um sistema de contagem temporal mais antigo que a data do nascimento de Cristo, o dia 21 de Dezembro de 2012 como o final de todos os tempos… Será esta a data do nosso fim enquanto espécie humana? Ou será finalmente esse o dia em que quebramos todas as nossas dúvidas existenciais e em que quatro cavaleiros medonhos afrontarão o nosso mundo com cornetas ensurdecedoras? Vamos esperar para ver, pois não há bunker que nos valha…
Se leu o último parágrafo, com certeza que vai querer ler os próximos, sobretudo para não pensar que este é, de todo verdadeiro. Alguns factos que nele estão escritos são verdadeiros (ou, pelo menos, baseados em algumas realidades…!). Outros são tão falsos como Epiménides no seu famoso “Paradoxo do Mentiroso”. Uma mão cheia de sites duvidosos e um par de autores e realizadores de cinema cheios de imaginação conferem a esta data comum uma boa dose de cataclismos para garantir o sucesso de um simples mexerico. Para expôr a situação de uma forma satisfatória, vamos começar por aprender um pouco acerca do calendário maia…

O CALENDÁRIO MAIA – Ciclos, ciclos e mais ciclos…

Os Maias estabeleceram-se na América Central por volta de 2000 a.C. (datas previstas pelos registos mais antigos). Há estudos que sugerem uma des-socialização do povo Olmeca (anterior a este período) e outros que, porém, sugerem uma interacção entre os dois povos. No entanto quase todos os estudiosos são unânimes em afirmar que o famoso calendário dos Maias foi elaborado, não por estes, mas sim pelos Olmecas. O povo Maia, contudo, refinou o processo e concebeu um sistema de contagem notável, de facto. Este sistema permitia a contagem de todos os dias de um modo diferente durante um ciclo de 7885 anos. É impressionante, sem dúvida, sobretudo se pensarmos na época em que o sistema foi concebido. Os Maias eram astrónomos fenomenais e muitas das suas grandiosas construções arquitectónicas eram destinadas às observações astronómicas. A linguagem Maia ainda não foi totalmente decifrada. Com a chegada dos espanhóis no séc. XVI a civilização Maia entrou num declínio abrupto e grande parte do seu património histórico, tanto artístico como literário, foi, infelizmente destruído. Os poucos documentos que chegaram aos nossos dias não são suficientes para desvendar todos os segredos, mas, pelo menos, são-no para descobrir a forma como esta civilização mística contava o seu tempo.

Os Maias utilizavam dois ciclos de dias diferentes para referir uma data. A junção dos dois sistemas origina nomes e símbolos diferentes para cada dia durante 52 anos. Para ver como funcionava esta relação é preciso primeiro abordar a numeração Maia.

• OS NÚMEROS MAIAS

Ao passo que nós utilizamos um sistema de contagem baseado no número 10, os Maias utilizavam um sistema numérico de base 20. Supõe-se que foi escolhido o vinte por ser a soma de todos os dedos no corpo humano. Além disso implementaram também o numero zero no seu sistema. É importante salientar que o zero, tal como o conhecemos, foi divulgado na Europa durante a idade média, ao passo que os Maias, tal como os Egípcios ou os Babilónicos já utilizavam o zero nos seus sistemas de contagem antes do nascimento de Cristo. À excepção do zero, os numerais Maias eram compostos por barras e pontos. Os numerais podiam ser escritos na horizontal ou na vertical:

Os números maiores que 19 eram escritos como combinação linear de potências decrescentes de base 20, cujos coeficientes variam entre zero e 19 inclusive. Não é complicado sobretudo se pensarmos num exemplo concreto. Imaginemos um número muito grande, por exemplo, 10316. Uma simples máquina de calcular permite descobrir que este número se pode decompor na soma 10316 = (1 x 20³) + (5 x 20²) + (15 x 20) + 16. Os Maias escreviam então os números 1, 5, 15 e 16 (os chamados coeficientes) por ordem da esquerda para a direita (usando os glifos verticais) ou de cima para baixo (usando os glifos horizontais). A seguir encontram-se outros exemplos bem como as respectivas representações na linguagem Maia (por uma questão de simplicidade, as sequências apresentam-se da esquerda para a direita):

Nada mau para uma civilização milenar, não?! Os glifos numéricos misturam-se com os glifos dos dois sistemas de contagem do tempo do calendário Maia. Estes dois sistemas baseiam-se em dois ciclos distintos de contagem, um que assenta em períodos de 260 dias (sistema tzolk’in) e outro baseado em períodos de 365 dias (sistema haab’). Vejamos como funcionam:

• O SISTEMA TZOLK’IN

Os Maias conjugavam os números de 1 a 13, inclusive, com 20 dias distintos, criando, desta forma 260 combinações diferentes de sequências “número/dia” por esta ordem. Os glifos utilizados para os 20 dias eram os seguintes:

A contagem começava com 1-Imix’. Até ao 13º dia (13-B’en) a sequência era formal, mas, ao 14º dia, os números recomeçavam no 1 e, portanto, chamava-se 1-Ix. Continuava até ao 7-Ajaw, o 20º dia e, ao 21º dia, os nomes recomeçavam. Este chamava-se então 8-Imix’. Este método de contagem permitia nomes diferentes aos 260 dias do ciclo e, mantendo a regra, o dia 1-Imix’ reaparecia passado exactamente um ciclo completo. A seguir encontra-se os três primeiros grupos de ciclo completo com os respectivos nomes. Um pouco de atenção permite visualizar perfeitamente que todas as conjugações são diferentes:




Prosseguindo pelo mesmo mecanismo chegamos ao 13º grupo e ao final do ciclo:

Os Maias conceberam até alguns engenhos para identificar o dia presente. Um deles consistia em duas rodas mecânicas, uma dividida em 13 partes para os números e outra dividida em 20, para os nomes dos dias. As duas rodas estavam interligadas por meio de uma engrenagem e, só ao fim de 260 dias (20 voltas completas na roda mais pequena e 13 voltas completas na roda maior) é que as duas rodas voltavam à posição inicial.

Este ciclo de 260 dias era baseado no ciclo sagrado Maia e determinava, sobretudo, a data de certas celebrações religiosas em honra dos seus deuses. A origem dos 260 dias, contudo, continua duvidosa. A inclinação geral é que 260 dias é o período médio de gestação dos humanos, entre a última menstruação e o dia de nascimento, e que o sistema tzolk’in foi desenvolvido com o intuito de prever o dia do nascimento dos bebés Maias.

• O SISTEMA HAAB’

O outro sistema de contagem do tempo permitia criar um ciclo de 365 dias, um valor muito próximo de um ano solar uma vez que desprezava a existência de anos bissextos. A contagem consistia num método aproximadamente igual ao sistema tzolk’in mas, agora, utilizavam-se novos glifos, o número zero e um mecanismo ligeiramente diferente. Os 365 dias eram compostos por 18 conjuntos (winal) de 20 dias cada (k’in) mais um período de 5 dias (wayeb’). Cada um destes conjuntos vinha então acompanhado por um número, salvo o primeiro dia (o dia zero) que normalmente utilizava o símbolo do winal isolado. Os glifos para estes períodos têm os seguintes aspectos:

A contagem agora prossegue de uma forma diferente do sistema tzolk’in. Os dias são contabilizados numericamente de 0 a 19 inclusive para cada winal da tabela anterior pela ordem apresentada. De um modo muito grosseiro, os winal são como que meses do ano, constituídos por vinte dias cada um. O último período, o wayeb’, é contabilizado da mesma forma mas apenas de 0 a 4 inclusive.



No final dos 360 dias seguia-se então os cinco k’in do wayeb’:


Decorriam então 365 dias do ano Maia.

• OS DOIS SISTEMAS CONJUGADOS

Ao contar os dias simultaneamente vamos encontrar milhares de combinações diferentes de sequências de símbolos (mais precisamente 18 980 dias, isto é, aproximadamente 52 anos). Esta junção dos dois sistemas era razoavelmente suficiente para contabilizar todos os dias da vida de um ser humano da altura, cuja esperança média de vida era inferior a 52 anos. Os primeiros dias deste ciclo monstruoso eram então identificados como:

Apesar da dimensão grandiosa do sistema duplo, as medições não eram criteriosas ao ponto de acrescentar um dia ao ciclo Haab’ de quatro em quatro ciclos, para compensar o facto do ano não possuir 365 dias exactos, mas sim 365,24 dias. Tal origina no calendário Maia um adiantamento de ¼ de dia, por ano, nas datas dos inícios das estações do ano pelo que, com o passar dos anos, estas datas iam-se alterando de acordo com o calendário. Amanhã, dia 26 de Junho de 2010, Sábado, no calendário Maia lê-se:


O primeiro de Janeiro de 2011 ler-se-á:


E o terrível 21 de Dezembro de 2012 terá o aspecto:


• O  SISTEMA DE CONTAGEM LONGA

Mas o calendário Maia tem muito mais que se lhe diga. Para contabilizar períodos ainda maiores, os Maias desenvolveram, a partir do sistema haab’, o sistema de contagem longa. Este é assente em períodos de 360 dias (relativos aos winal) desprezando os cinco dias do wayeb’. Os 18 winal constituem um tun, 20 tun constituem um k’atun e 20 k’atun formam um b’ak’tun. Conseguem-se assim assinalar 2 880 000 dias (aproximadamente 7885 anos). Apesar da haverem grandezas ainda maiores (20 b’ak’tun formam um piktun, 20 piktun um kalabtun, 20 kalabtun um k’inchiltun e 20 k’inchiltun um alautun) ficaremos pelos b’ak’tun pois, além de serem os mais utilizados, serão suficientes para relacionar o tema com o dia 21 de Dezembro de 2012.
Os Maias utilizavam este sistema para datar os seus monumentos e muitas das suas escrituras. Mais: após os cinco coeficientes apresentados em sequência pela ordem b’ak’tun/k’atun/tun/winal/k’in referiam também logo a seguir as datas escritas na linguagem tzolk’in e haab’ por esta ordem. Mas, para entender melhor o processo, vamos ver alguns exemplos e conhecer mais alguns glifos.

O primeiro destes 144 000 dias chama-se então 0-B’ak’tun-0-K’atun-0-Tun-0-Winal-0-K’in. Tal como no sistema haab’, suprimem-se os números e a sua representação limita-se aos cinco símbolos escritos pela ordem atrás representada:


Os números vão então crescendo no k’in e, ao completar 20 dias (19-k’in), aumenta o winal e o k’in recomeça do zero:


Por cada 20 k’in aumenta-se então um valor ao winal:


Ao 18º winal aumenta-se o tun e a contagem recomeça:


Depois de 20 tun aumenta-se o coeficiente do k’atun:


E, passados 20 k’atun, eleva-se finalmente o b’ak’tun:


O ciclo termina em:


E estamos finalmente em condições de escrever a data completa do dia de amanhã (26 de Junho de 2010):


A data completa de dia 01 de Janeiro de 2011 ler-se-á:


E dia 21 de Dezembro de 2012 será surpreendente:


Como se pode ver, o dia 21 de Dezembro de 2012 é o primeiro dia do 14º b’ak’tun, isto é, o 13º b’ak’tun, que decorre neste momento, termina a dia 20 de Dezembro do mesmo ano. A primeira desmistificação de todas é precisamente aquilo que os historiadores mesoamericanos sabem: o calendário Maia não termina a 21/12/2012. Apenas termina um b’ak’tun e começa  outro. Para quem não quiser desacreditar o fim do mundo, fica aqui a informação: No dia 18 de Setembro de 1618 iniciou-se o b’ak’tun que decorre neste momento. É garantido que o mundo não acabou nesse dia…

O ALINHAMENTO CÓSMICO – Coincidências do nosso bairro celestial

Todas as estrelas que vemos numa noite limpa fazem parte da Via Láctea, a nossa galáxia. Mas a Via Láctea não suporta apenas estrelas. Além do nosso sistema solar e de outros, semelhantes ou não, existem também no nosso bairro celestial outros objectos, entre os quais nuvens de gás, de pó, nebulosas, enxames, pulsares… A Via Láctea é tão grande que, só em estrelas, contabiliza mais de 200 mil milhões. Um número grandioso, sem dúvida. Não pense, no entanto, que o nosso Universo se resume à Via Láctea. Na realidade existem biliões de outras galáxias, algumas das quais visíveis a partir do grãozinho de areia que é o nosso planeta. A partir da visualização de outras galáxias e das observações feitas às nossas estrelas vizinhas, aquelas que se vêem à noite, foi possível estudar a estrutura interna da Via Láctea, bem como o seu tamanho, a sua massa e a sua velocidade de rotação.

• AS CARACTERÍSTICAS DA VIA LÁCTEA

A nossa galáxia encontra-se no grupo das denominadas Galáxias Espirais, pois, vista na perpendicular ao plano galáctico, apresenta uma região central mais densa e avermelhada (constituída pelas estrelas mais velhas) da qual sobressaem braços em espiral de conjuntos de estrelas (em geral, cada vez mais novas à medida que nos afastamos do centro). O nosso sistema solar encontra-se no meio de um desses braços.

FONTE: NASA/JPL (autor: R. Hurt; criado por NASA; domínio público)

Como é fácil visualizar as estrelas da Via Láctea distribuem-se por um disco assente praticamente no mesmo plano. Esse disco tem aproximadamente 100 000 anos-luz de diâmetro (um ano-luz corresponde sensivelmente a 9,5 triliões de quilómetros) e 2 000 anos-luz de espessura, ou seja, apenas 2% do diâmetro. O plano sobre o qual assenta a nossa galáxia é chamado de Plano Galáctico. Por seu turno, as estrelas e os respectivos sistemas solares giram em torno do centro da galáxia tal como os planetas giram em torno da sua estrela-mãe. Quanto mais afastadas as estrelas estão do centro, mais lentamente se movem. O nosso Sol e os seus planetas completam uma rotação completa em torno do centro galáctico em “apenas” 200 milhões de anos à velocidade de 225 km/s (estonteante!). Supõe-se que, no centro da Via Láctea, existe um buraco negro alimentando-se das estrelas que dele se aproximam demasiado. O nosso Sol encontra-se a cerca de 27 000 anos luz desse monstro devorador.

• O PLANO GALÁCTICO E A ECLÍPTICA

Tal como uma mini-galáxia, o nosso sistema solar tem um comportamento semelhante. Os planetas giram em torno do Sol sensivelmente sobre o mesmo plano, a chamada Eclíptica. O nome Eclíptica provém do facto dos eclipses ocorrerem apenas quando a Lua se aproxima deste plano. A Eclíptica é, portanto, o plano formado pela órbita da Terra.


Ora a Eclíptica e a Via Láctea não estão sobre o mesmo plano. Na realidade o nosso plano orbital e o plano galáctico formam um ângulo de aproximadamente 60º sobre um raio da galáxia. Cientistas supõem que esta diferença entre a posição dos dois planos se deve provavelmente a algum tipo de interacção gravítica entre o nosso Sol e outra estrela que decorreu algures no passado. Para perceber melhor o que se passa, observe o seguinte esquema:


Em todos os anos, no dia 21 de Dezembro, o planeta Terra está no seu ponto orbital mais afastado do centro da galáxia. O alinhamento que ocorrerá no dia 21 de Dezembro de 2012 na realidade ocorre todos os anos no mesmo dia. Pelos mesmos motivos um alinhamento do mesmo género ocorre também a 21 de Junho todos os anos quando a Terra se encontra no seu ponto orbital mais próximo do centro da Via Láctea. A diferença é que, em Dezembro, o Sol encontra-se entre a Terra e o centro galáctico enquanto que, em Junho, é a Terra que está entre as outras duas entidades.



Como agora relacionar o calendário Maia com este evento aparentemente vulgar? Bem! Na realidade é muita coincidência a mudança do b’ak’tun ser precisamente no dia 21 de Dezembro, quando o Sol, a Terra e o Centro da Via láctea estão sobre a mesma linha recta. No entanto tal já aconteceu no passado e voltará a acontecer no futuro, mais precisamente no dia 21 de Dezembro do ano de 24 879 (daqui a quase 23000 anos ou 58 b’ak’tun completos). Mas a mudança de b’ak’tun ocorre sempre num dia do ano, como é evidente. Porque não ocorrer no dia 21 de Dezembro? Por ser um acontecimento raríssimo, é muito fácil relacioná-lo com qualquer data, a nível astronómico ou não. Este é, no fundo, o verdadeiro poder desenfreado da mente humana.
Para, no entanto, não deixar este post sem sabor, vou relacionar o calendário Maia com outro tema científico que, realmente, é surpreendente. Na verdade existe algo que poderá vir a acontecer no dia 21 de Dezembro de 2012 relacionado não com o alinhamento que atrás descrevi mas com o movimento de precessão dos equinócios do nosso planeta.

FACTOR DETERMINANTE: 26 000 ANOS – A grande surpresa do Calendário Maia

Para a civilização Maia, havia um outro ciclo escondido por detrás do calendário de contagem longa relacionado com o sistema de contagem tzolk’in. De 13 em 13 b’ak’tun o dia no sistema tzolk’in repete-se a partir do início do b’ak’tun. O início deste sistema ocorreu no dia 11 de Agosto de 3113 a.C. O dia 21 de Dezembro de 2012 assinalará precisamente a passagem de 13 b’ak’tun:


Os Maias consideravam que 13 b’ak’tun constituíam então um ciclo sagrado ou profético e que cinco destes ciclos (grupos de, portanto, 65 b’ak’tun) constituíam uma era terrestre. Estes 65 b’ak’tun equivalem a aproximadamente 26 000 anos, ou exactamente a 26 000 ciclos de 360 dias cada um. Ora um factor interessantíssimo é que 26 000 anos é também o período correspondente a um ciclo completo da precessão dos equinócios no movimento de rotação do nosso planeta (os valores exactos são ainda mais próximos uma vez que 65 b’ak’tun são 25 627 anos e o movimento de precessão tem um ciclo de 25 800 anos, um erro de apenas 0,7%).
Para entender o que significa movimento de precessão é necessário compreender que o eixo de rotação da Terra não é de todo perpendicular à Eclíptica. O Pólo Norte descreve ao longo dos 26 000 anos uma circunferência em relação ao planeta Terra.


Além do factor surpreendente de 65 b’ak’tun corresponderem ao período de uma rotação completa no movimento de precessão dos equinócios (que talvez não seja uma mera coincidência uma vez que os Maias eram astrónomos notáveis), é conseguir conciliar este período com outros factores históricos. Uma das teorias permite mesmo a inversão dos pólos magnéticos a cada movimento completo de precessão. E mais: É possível então correlacionar estes movimentos e estes ciclos com as Idades do Gelo que ocorreram no passado. As grandes glaciações do passado ocorreram com um intervalo de 100 000 anos entre elas (sensivelmente 4 ciclos de 65 b’ak’tun ou 4 voltas completas no movimento de precessão dos equinócios). É sem dúvida uma coincidência fantástica e nós, enquanto humanos, não podemos deixar de pensar que as duas coisas estão relacionadas. E talvez até nem estamos errados! A ser verdade, e tendo a referência da última grande glaciação ter começado há cerca de 110 000 anos, talvez possamos estimar que o dia 21 de Dezembro de 2012 assinalará um evento que irá alterar completamente o nosso planeta nos próximos milhares de anos: O início de uma nova Era Glaciar! É de notar que os períodos mais frios durante uma Era Glaciar duram aproximadamente 90 000 anos intercalados por períodos de 10 000 anos de temperaturas mais quentes. Se realmente houver alguma verdade nisto, nós estamos no final desse período de 10 000 anos e a data precisa de transição entre as duas Eras Glaciares será então 21/12/2012.


Como se pode constatar o polígono que marca os inícios das Eras Glaciares dos últimos milhares de anos é quase linear. O coeficiente da correlação desta linha é igual a 0,98 (uma correlação fortíssima), portanto é de esperar que, realmente, as Eras Glaciares no nosso planeta são cíclicas. O mais interessante é que se entrarmos agora com um novo dado (imaginemos que estamos mesmo à beira do início de uma nova Era Glaciar) o coeficiente de correlação aumenta para 0,99, isto é, uma correlação ainda maior. Não acredita? Mas há mais… Segundo uma estimativa linear, colocando os pontos em regressão, vamos encontrar a recta que passa o mais perto possível dos pontos indicados. Essa recta tem a particularidade de prever a data de acontecimentos regulares (é uma previsão estatística, mas não deixa de ser uma previsão). Para este post determinei a equação dessa recta (do tipo y = mx + b) pelo método dos mínimos quadrados, considerando x como sendo a ordem da Era Glacial e y a idade do começo das mesmas.
Qual não foi a minha surpresa quando encontrei a equação y = 106 200x. Só! Não há b! Aliás! Haver até há! Só que é igual a zero… Quem perceber um pouquinho de matemática, já se apercebeu do que eu estou a falar e imagino que esteja petrificado! Para quem não sabe o que tal quer dizer, eu passo a explicar: se fizermos x = 0 (estamos, portanto, a considerar uma nova Era Glaciar) vamos encontrar y = 0 … Isso significa que uma nova Era Glaciar tem idade igual a 0 anos (aproximadamente) e, portanto, está prestes a começar. Nunca pensei que realmente encontrasse este resultado!

Este é, sem dúvida, o resultado mais inesperado que obtive mas, no entanto, isto não prova que o calendário Maia prevê este tipo de ciclos e está certo em relação à grande mudança de b’ak’tun no dia 21 de Dezembro de 2012. Para quem gosta destas coisas, termino este post com um pequeno apontamento relativo às mudanças climatéricas dos últimos anos. Um aquecimento global está bastante relacionado com o desencadear de uma Era Glaciar. Alguns estudos afirmam mesmo que qualquer Era Glaciar é antecedida por alguns anos de aquecimento global. Ora, se tudo estiver relacionado, as alterações climatéricas que estamos a atravessar no momento podem estar muito pouco relacionadas com as quantidades de dióxido de carbono que o homem expele para a atmosfera. Existem, inclusive, cientistas que defendem com unhas e dentes que as duas coisas não estão minimamente relacionadas uma vez que argumentam que as quantidades de CO2 produzidas pelo homem são praticamente desprezíveis em relação à massa total da nossa atmosfera. Será verdade? Bem! Não sou o homem do tempo, portanto… Seja como for, tudo leva a crer que estamos à beira do começo de uma nova idade do gelo. E, além disso, o estudo que fiz parece mesmo sugerir que este evento foi previsto pelo calendário Maia e que o ponto de viragem é no dia 21 de Dezembro de 2012. Por incrível que pareça, nessa data o centro da nossa Via Láctea, o Sol e o planeta Terra estarão em perfeita harmonia sobre a mesma linha deitando mais achas na fogueira e alimentado a mente sedenta de correlações que é a dos humanos. Que raios! E eu também as encontrei! Afinal sou tão humano como os outros que me rodeiam…

REGRA GERAL…

…mesmo que a correlação encontrada seja verdadeira; mesmo que a grande mudança de Eras se dê pela passagem do 13º para o 14º b’ak’tun do calendário Maia; mesmo que o alinhamento entre o centro galáctico, o Sol e o planeta Terra seja um factor intermediário nas conclusões que tirámos; mesmo, mesmo, mesmo… A verdade é que essas alterações serão graduais e demorarão centenas, ou até mesmo milhares de anos a concretizar-se. Períodos demasiadamente longos para o factor mais decisivo de todos: a nossa longevidade. Nós temos o poder da adaptação! E se o período que nos obriga a tal feito se prolongar a várias gerações, essa adaptação pode até existir… Mas é certo que irá passar despercebida.


sábado, 22 de maio de 2010

A Filosofia Do Outro Lado Do Universo

ATENÇÃO: A leitura do seguinte post pode levantar sérias dúvidas
relativas ao nosso existencialismo enquanto humanos e seres pensantes.
Todas as teorias a seguir apresentadas são, de facto,
sustentadas pela ciência e comprovadas matematicamente.
As questões apresentadas a seguir já levantaram algumas polémicas interessantes
mas também bastante perturbadoras.

Chegou a hora de expor o Universo onde vivemos. Esta imensidão de espaço que os nossos olhos vêem, na realidade, vai muito mais além do que observamos. “Coisas” que não podemos ver, sentir, tocar ou ouvir (e, porque não, também saborear) estão na ordem do dia e passarão, talvez mais cedo que o previsto, a figurar nas luzes da ribalta. As consequências deste novo formato são avassaladoras e, não tarda nada, há que encará-las com determinação e empenho. Determinação e empenho, sobretudo, em questionar a nossa existência e em aceitar aquilo que realmente somos: matéria e energia.
O funcionamento do Universo é muito complexo. Ele está repleto de objectos que nunca vimos e pode ser tão grande, tão imenso, ao ponto de não ter fim. Não é difícil pensar num Universo infinito. Este é, aliás, um dos possíveis modelos para o nosso Universo criados pela ciência enquanto capacidade humana. No entanto, se realmente já pensou que o Universo é infinito, já pensou também nas consequências adjacentes a este facto? Este é o mote ao primeiro tópico deste post, onde vamos considerar o nosso Universo infinitamente grande, começando por fundamentar esse facto.

UNIVERSOS DO TIPO I – Nos confins inatingíveis do espaço

No momento do Big Bang o nosso Universo era um ponto infinitamente pequeno, infinitamente pesado e infinitamente denso. Porque os infinitos dão origem a infinitos, há cientistas que ponderam seriamente que o nosso Universo é infinitamente grande. De facto, as medições feitas até à data parecem sugerir isso mesmo. Essas medições, na verdade, estão assentes num método matemático muito simples: a triangulação. Ao somar os ângulos internos de um triângulo obtemos, como é sabido, 180º. Baseados neste pequeno postulado, os cientistas começaram a medir os ângulos internos de triângulos gigantes no espaço, usando como pontos de referência objectos distantes e feixes de raios laser a partir da Terra.


Em condições normais, supondo que o triângulo está assente sobre um plano euclidiano, os ângulos α, β e γ deverão somar 180º, isto é: α + β + γ = 180º. Se, por outro lado, os ângulos α, β e γ não somarem 180º exactos (mas sim um pouco mais) então o nosso Universo é curvo como ilustra a seguinte figura, de uma forma exagerada para uma melhor percepção:

Encontrada uma curvatura no espaço, prova-se que o Universo é fechado e curvado sobre a sua própria gravidade. Até agora, porém, essa curvatura, se existir, ainda não foi detectada, pelo que prevalece, para muitos, a ideia de Universo aberto e, portanto, infinitamente grande. Há, no entanto, quem contra-argumente e defenda que a instrumentação actual não é precisa o suficiente para encontrar um ângulo superior a 180º nestas condições. A curvatura é tão ténue que a diferença é reduzidíssima e insuficiente para ser detectada com a tecnologia actual. Contudo, nestas condições, a ideia de Universo aberto ainda não foi refutada.
Se o nosso Universo for realmente aberto e, portanto, infinitamente grande, as consequências filosóficas são abismais. Para melhor o compreender, vou utilizar um exemplo bastante simples de infinito: a dízima infinita não periódica π. Toda a gente conhece o número π (“pi” é uma letra grega que corresponde à letra “p” do alfabeto latino) e toda a gente sabe que π é igual a 3,14. Ora, na realidade, π é um número irracional e 3,14 é apenas um valor aproximado dessa dízima. Para ter uma ideia, a seguinte representação continua a ser um valor aproximado de π (com 544 casas decimais):

π = 3,141 592 653 589 793 238 462 643 383 279 502 884 197 169 399 375 105 820 974 944 592 307 816 406 286 208 998 628 034 825 342 117 067 982 148 086 513 282 306 647 093 844 609 550 582 231 725 359 408 128 481 117 450 284 102 701 938 521 105 559 644 622 948 954 930 381 964 428 810 975 665 933 446 128 475 648 233 786 783 165 271 201 909 145 648 566 923 460 348 610 454 326 648 213 393 607 260 249 141 273 724 587 006 606 315 588 174 881 520 920 962 829 254 091 715 364 367 892 590 360 011 330 530 548 820 466 521 384 146 951 941 511 609 433 057 270 365 759 591 953 092 186 117 381 932 611 793 105 118 548 074 462 379 962 749 567 351 885 752 724 891 227 938 183 011 949 129 833 673 362 440 656 643 086 021 394 946 395 224 737 190 7…

A representação de π é tão grande quanto se queira. A dízima não tem fim e os algarismos que a constituem surgem de uma forma aleatória. Neste caso, qualquer número considerado, irá aparecer, mais cedo ou mais tarde, na representação de π. Podemos utilizar a última representação para encontrar alguns números:
● A minha idade: 30.
● O número de teclas de um piano: 88.
● O número de megabytes num CD-ROM: 700.

π = 3,141 592 653 589 793 238 462 643 383 279 502 884 197 169 399 375 105 820 974 944 592 307 816 406 286 208 998 628 034 825 342 117 067 982 148 086 513 282 306 647 093 844 609 550 582 231 725 359 408 128 481 117 450 284 102 701 938 521 105 559 644 622 948 954 930 381 964 428 810 975 665 933 446 128 475 648 233 786 783 165 271 201 909 145 648 566 923 460 348 610 454 326 648 213 393 607 260 249 141 273 724 587 006 606 315 588 174 881 520 920 962 829 254 091 715 364 367 892 590 360 011 330 530 548 820 466 521 384 146 951 941 511 609 433 057 270 365 759 591 953 092 186 117 381 932 611 793 105 118 548 074 462 379 962 749 567 351 885 752 724 891 227 938 183 011 949 129 833 673 362 440 656 643 086 021 394 946 395 224 737 190 7…

Obviamente que, se pretendermos encontrar números maiores nas regularidades de π, é natural termos que prolongar a sua representação. No entanto, podemos garantir que, por muito grandes que tais números sejam, eles irão aparecer algures por entre as casas decimais de π.

Tal como π, se o nosso Universo for infinito, isso significa que qualquer realidade existe algures no Universo. É garantido! Se o nosso Universo for infinitamente grande existe algures uma pessoa igual a mim que escreveu um post igual a este num blog tal e qual o que está a ver neste momento. Existe, inclusive, uma outra pessoa igual a mim que escreveu um post igual a este há já algum tempo e que se tornou famosa por tê-lo escrito. Pode pensar também na sua pessoa: Existe algures no Universo uma pessoa igual a si que, em vez de estar a ler este post, está a escrevê-lo. As possibilidades são infinitas, e, por mais absurdas que sejam as ideias que lhe venham à cabeça neste momento, desde que fisicamente viáveis, o nosso Universo contempla-as algures GARANTIDAMENTE. Algures, no Universo, a acção do Senhor dos Anéis ocorre na realidade ou o leitor é o Primeiro-Ministro de um país chamado Portugal ou uma raça de criaturas verdes e viscosas invade um planeta chamado Terra tal e qual o nosso. E todas estas possibilidades ocorrem neste momento. Aliás ocorrem a qualquer momento uma vez que, se todas as possibilidades existem, então, algures, está a acontecer no Universo aquilo que aconteceu no nosso planeta há dez minutos atrás.
A ideia pode causar alguma perplexidade uma vez que põe em causa o nosso individualismo, isto é, eu deixo de ser um ser único e passo a ser uma réplica de uma infinidade de outros como eu, que pensam da mesma forma e que têm a mesma aparência. Estes mundos que existem algures pelo nosso Universo são chamados Universos Paralelos do tipo I, por abuso de linguagem, claro está. É que, na realidade, estes mundos não são Universos paralelos. São simplesmente outras regiões do mesmo espaço em que habitamos. Mas o que é certo é que, se nós ainda não encontrámos outra sociedade igual à nossa no Universo em que vivemos, se este for infinito, existirá uma sociedade igual à nossa que já encontrou uma outra igual.
Apesar de tudo, a existência de outros seres iguais a mim pode não causar confusão a muita gente. Esses seres podem até ser iguais mas estão muito longe e eu não tenho que me preocupar com eles. A linha de pensamento de quem gosta de tapar o sol com a peneira não o vai livrar de questionar a sua existência quando se deparar com o próximo tópico.

UNIVERSOS DO TIPO II – Viram o pterodáctilo que aqui passou?

Há muito que caiu em desuso o modelo estrutural das partículas que compõem a matéria do nosso Universo. No modelo clássico, por exemplo, um átomo de carbono, o principal elemento da matéria orgânica, era constituído por seis electrões que descreviam órbitas perfeitas em torno de um núcleo de seis neutrões e seis protões. Em termos de constituintes, a ideia continua correcta à face da ciência actual. No entanto, em termos estruturais e funcionais, hoje em dia já não se pensa assim. A moderna Física Quântica encara as partículas desprovidas de massa (de que são exemplo os electrões) de uma forma dual. Tais partículas assumem dois tipos de comportamentos: por vezes comportam-se como outras partículas maiores (como os protões ou neutrões) e nas outras vezes comportam-se como ondas, deixando pura e simplesmente de existir enquanto partículas. Sendo assim, um electrão tem uma vida bastante agitada. Por vezes desaparece e transforma-se numa onda. Depois volta a aparecer sob a forma de uma partícula. Posto isto, o modelo mais aceite para a descrição do átomo não assenta naquela imagem que todos nós conhecemos dos manuais de Física e Química do 8º ano, mas sim, numa imagem que representa a chamada nuvem electrónica que envolve os nucleões (protões e neutrões):


Repare que, no modelo actual a nuvem electrónica à volta do núcleo do átomo é mais densa perto deste. Isso significa que, um electrão tem mais probabilidade de aparecer perto do núcleo do átomo do que longe deste. Na realidade, em situações ideais, um átomo de carbono continua, para todos os efeitos, a possuir seis electrões à volta do seu núcleo. Apenas deixou de se considerar que estes orbitam suavemente em torno dos nucleões, mas sim, vibram à velocidade da luz nas suas proximidades, alterando o seu estado entre partícula e onda constantemente.
Pode não parecer mas as causas deste modelo atómico impressionam qualquer um. Se não o impressionam a si, é porque ainda não pensou seriamente nelas. Senão, vejamos:
O Princípio da Incerteza de Werner Heinsenberg assegura que as medições feitas por um observador alteram o estado daquilo que está a ser observado, ou, equivalentemente, é impossível visualizar o que quer que seja nas suas condições ideais sem afectar essa observação. O conceito é muito simples e uma das formas de o compreender é pensar que a luz não é instantânea mas sim que, na realidade, o que quer que observemos já acontecem há algum tempo. Ao observarmos pela objectiva do telescópio a galáxia de Andrómeda, por exemplo, estamos na realidade a captar a luz por ela emitida há já dois milhões de anos. Mas não é preciso ir tão longe: a luz do sol que chega à Terra demorou cerca de oito minutos desde que partiu do nosso astro-rei, ou seja, se o nosso sol, tragicamente, se apagasse neste exacto momento, só daqui a oito minutos é que nós o saberíamos. Levando o Princípio ao extremo, mesmo quando olha para um pássaro a voar no céu, ele na realidade já não está exactamente no ponto para onde está a olhar, mas sim um pouco mais à frente. Por muito perto que um objecto esteja de si, quando o observa está a captar a luz por ele emitida (ou reflectida) há já algum tempo.
Imagine agora um captador hipotético da posição, por visualização, de um electrão. Esse captador observa o electrão num dado ponto perto de si. Depois, o electrão desaparece e transforma-se em onda. Passado um instante volta a surgir um pouco mais afastado. Como sabemos a velocidade da luz, podemos determinar a altura exacta em que o electrão surgiu nos dois lugares. Feitas as contas, podemo-nos deparar com algo monstruoso: o electrão esteve nos dois sítios ao mesmo tempo. Como é isso possível?


Na realidade, se o mesmo electrão apareceu nestes dois sítios ao mesmo tempo, “o” que apareceu mais perto do captador será visualizado mais cedo do que “o” de apareceu mais longe porque a luz demorou mais tempo a percorrer a distância maior. Mas, se realmente, um electrão pode aparecer em dois lugares em simultâneo o que quer isso dizer?
Esta experiência abstracta (na realidade trata-se de uma experiência mental, não passa de um pequeno exercício esquemático para compreender algo que se passa na realidade mas que não se pode visualizar) permite concluir então que partículas desprovidas de massa podem surgir em dois lugares no espaço em simultâneo. Vamos utilizar outro exemplo hipotético para compreender as consequências deste facto.
Imagine que está em sua casa e que decide abrir a janela para deixar circular um pouco de ar. No momento em que está para abrir a janela, lembra-se que, por outro lado, se a abrir, pode encher a casa de insectos. Qual é a sua decisão? Ora, no momento da sua decisão vamos perfurar o seu cérebro e viajar até ao mundo maravilhoso e complexo que é a sua massa cinzenta. Algures numa pequenez desenfreada vamos encontrar o átomo que vai ser responsável pela sua decisão. E, nesse exacto momento, o electrão que vai tomar tal decisão surge, como já vimos, no mesmo lugar em simultâneo: no lugar onde o leitor decide abrir a janela e noutro onde o leitor decide deixar a janela fechada. E agora volto a perguntar: O que realmente acaba por fazer? Abre a janela e ignora uma das posições do electrão responsável ou deixa-a fechada acabando por ignorar a outra posição?
É agora que tudo desaba e, se quisermos responder correctamente à questão atrás colocada, teremos que dizer: “O leitor decide as duas coisas e acaba por fazer ambas”. Ou seja, o leitor irá abrir a janela para deixar entrar uma corrente de ar fresco na sua casa mas também irá deixar a janela fechada para não deixar entrar as moscas…
Como é isto possível? No momento em que o mesmo electrão surge nas duas localizações o nosso Universo divide-se numa cópia de si mesmo. A única diferença entre esses dois novos Universos é a posição do electrão: num dos Universos o electrão está na posição em que o leitor abre a janela enquanto que, no outro Universo o electrão está na posição que o leva a decidir deixar a janela fechada. A este processo os físicos chamam Descoesão do Universo e está constantemente a acontecer, inclusive neste preciso momento. A consequência primordial da aceitação da Descoesão do Universo é a existência, mais uma vez, de todas as realidades que conseguir imaginar. Este tipo de Universos, no entanto e ao contrário dos referidos no tópico anterior, envolvem a sua pessoa, apesar da sua consciência ter a noção de apenas um dos Universos – aquele em que está a pensar neste momento. O chamado Efeito Borboleta aplicado a este modelo origina algumas situações interessantes, principalmente quando faz especulações na sua vida do tipo: “Se eu tivesse feito assim…”. Na realidade, quando levanta este tipo de questões, lembre-se que existe um Universo onde o fez. O problema é que não conseguirá saber o que está a acontecer nesse Universo pelo que não poderá ter consciência das consequências das decisões que não tomou no Universo onde está, neste momento, a pensar. Complicado? Observe:


Sendo assim garanto-lhe, a si caro leitor, que: esta semana vai ganhar o Euromilhões. Garanto-lhe também que, no próximo ano, vai ser pai. E mais: É também garantido que daqui a 10 anos vai viajar até à Lua. Todas as suas decisões vão ser tomadas por si e todos os desfechos serão possíveis e irão acontecer.
Mas uma pergunta surge na cabeça de toda a gente: Se o Universo se dividiu em dois e eu continuo neste, para onde foi o outro? E, mais uma vez, a Física Quântica assombra tudo e todos com a resposta: Não foi para lado nenhum: Está aqui mesmo, “por cima” deste. No momento em que o Universo se copia a si próprio, os dois Universos resultantes ocupam o mesmo lugar mas em dimensões diferentes. A massa que constitui um é a mesma massa que constitui o outro tal como se essa massa viajasse entre os vários Universos mudando de dimensão em todos os instantes constituindo todos de uma vez. Admitindo, portanto, que desde o momento do Big Bang, que o Universo se copia em Universos paralelos sobrepostos, neste instante, na sua sala de estar, estará certamente um actor famoso, ou um extraterrestre ou um dinossauro a passar. Em qualquer dos casos de certeza que estará a sentir pena por não lhes poder tocar.
A questão adjacente a este modelo resolve outro grande paradoxo da ciência. No post anterior expliquei que, em teoria, é possível viajar para trás no tempo. Ora mas se realmente é, se alguém mal intencionado viajar até ao passado e assassinar o seu próprio avô antes de ter filhos, como irá nascer no futuro? A questão fica resolvida se este tipo de Universos existir: ao voltar atrás no tempo, invertem-se todas as coesões até à data do final da viagem. Um novo conjunto de coesões surge a partir da sua presença no passado e cria-se então um novo Universo onde esse alguém nunca nascerá. Poder-se-ia pensar então que, viajar para trás no tempo seria uma excelente forma de viajar também entre Universos paralelos, não fosse o facto de, ao viajar no tempo e voltar ao passado, nunca mais podermos regressar ao presente tal e qual como o conhecemos, isto é, nunca mais podemos voltar ao Universo de onde partimos.
Os dois tipos de Universos paralelos apresentados nestes dois tópicos são completamente compatíveis entre si, ou seja, a existência de um dos modelos considerados não implica a não existência do outro. Podem ambos ser reais assim como ambos surreais. Aplicando, portanto, o Princípio da Incerteza de John Keynes aos dois modelos, existe uma probabilidade de 75% de pelo menos um destes modelos ser real, isto é, quase que podemos acreditar sensatamente na existência de Universos paralelos. Se esta probabilidade não for suficiente para o convencer, prometo-lhe que a vou aumentar um pouco até ao final deste post.

UNIVERSOS DO TIPO III – Uma sopa cósmica de bolhas

Os modelos para a explicação do nosso Universo constituem uma panóplia de teorias que podem entrar em conflito umas com as outras ou podem também complementar-se. As duas grandes “escolas” para a modelação universal são a Teoria da Gravidade em Loop e a Teoria das Cordas. A Teoria das Cordas, defendida com unhas e dentes pelo Dr. Michio Kaku, famosíssimo físico da Universidade de Nova Iorque, prevê a existência de um novo tipo de Universo paralelo, e é sobre esta teoria que vamos falar neste tópico. A teoria permite também o intercâmbio de matéria entre os vários universos existentes através de uns portais famosos de que já ouviu falar com certeza: os buracos negros. A comprovar-se, poder-se-á pensar em viajar até um universo paralelo para tirar umas feriazinhas talvez daqui a uns anitos… A Teoria das Cordas, contudo, é incompatível com a ideia de Universo Aberto. A ser correcta, o nosso Universo terá que ser fechado e, portanto, a Teoria inviabiliza a existência dos Universos considerados no primeiro tópico.
Na Teoria das Cordas toda a matéria é constituída no seu nível mais pequeno por uma espécie de filamentos semelhantes a pequenas “cordas” de borracha. Esses filamentos ao vibrarem constituem não só a matéria que conhecemos como também as forças que regem o nosso Universo: as forças nucleares forte e fraca, a força electromagnética e, a mais importante de todas, a força da gravidade. Basicamente é ir um pouco mais além do que Albert Einstein, que afirmou no passado que a matéria e a energia são, na realidade, duas formas diferentes da mesma coisa ao expor ao mundo a sua Teoria da Relatividade Restrita e a famosa equação E = mc². O Dr. Michio Kaku acredita que também as forças regentes do cosmos são da mesma natureza que a matéria e, portanto, da mesma natureza que a energia. Tudo é composto por “cordas”. A forma como elas vibram determinam o Universo à nossa volta. Essas vibrações acontecem em 11 dimensões distintas a fim de determinar na sua completude uma determinada partícula: três dimensões espaciais que determinam a posição da partícula no espaço, uma dimensão temporal que determina a altura em que “vive” a partícula e sete dimensões encurvadas que determinam as forças presentes na partícula, entre as quais as quatro forças principais do Universo.


Se realmente estes pequenos filamentos semelhantes a cordas de borracha forem o constituinte do que de mais pequeno há no Universo, então a ciência poderá vir a deslumbrar toda a comunidade com uma Teoria Una que alia a Teoria da Relatividade à Teoria Quântica com um modelo capaz de explicar todo o funcionamento do Universo. Se realmente isso acontecer, então a Teoria das Cordas obrigar-nos-á a aceitar um novo tipo de Universo Paralelo. Basicamente o nosso Universo subsiste numa sopa cósmica de uma imensidão de vários universos, tal como num banho de espuma. Cada bolha desse preparado constitui um Universo e sempre que dois Universos paralelos se tocam, nasce um novo Universo a partir de um Big Bang tal como o que originou o nosso. A Teoria das Cordas vai ao encontro do que os físicos actuais pensam acerca da morte do nosso Universo. Este continuará a expandir-se infinitamente até cair num estado obsoleto e gelado onde as partículas que o constituem se desintegram numa imensidão de escuridade. Tal não é a sua concordância com as observações efectuadas que, apesar de ainda não ter sido provada, a Teoria das Cordas é o modelo mais aceite pela comunidade científica de todo o mundo para o mecanismo do cosmos.
O mais incrível ainda na Teoria das Cordas é o facto de esta admitir a possibilidade de viajar entre dois Universos paralelos. Segundo a teoria, a gravidade flui entre os vários Universos mesmo sem estes se tocarem (caso contrário originariam um Big Bang). Uma ideia radical bastante recente da parte de alguns cientistas norte-americanos considera os Buracos Negros como que as portas que ligam os vários Universos paralelos. No entanto essa nova teoria implica a existência de um outro tipo de buracos no espaço: os Buracos Brancos.
Um Buraco Negro nasce quando uma estrela, mais massiva que o nosso Sol, termina a sua vida numa grande explosão, chamada Supernova. O núcleo de ferro dessa estrela colapsa então sobre a sua própria gravidade dando origem a uma singularidade: uma região no espaço onde a força da gravidade é tão grande que nada lhe pode escapar (nem mesmo a própria luz). O que se pondera agora é precisamente o destino da matéria engolida pelo Buraco Negro. Teoricamente será expulsa por um Buraco Branco algures noutra região do cosmos, quem sabe até noutro Universo. Um Buraco Branco é, portanto, de modo muito grosseiro, o oposto de um Buraco Negro: ele é responsável por expulsar tudo o que foi engolido pelo seu companheiro Buraco Negro noutra região do espaço.


A Teoria das Cordas contempla ainda a existência de um quarto tipo de Universos paralelos, tais como outras sopas de bolhas onde cada bolha representa um Universo. Se julgarmos esses novos mega-universos noutras dimensões poderemos ir ao encontro dos Universos expostos no segundo tópico deste post. Se assim for, alguns desses mega-universos regem-se por leis físicas bastante diferentes das nossas. Contudo é impossível concebê-las! A imaginação humana não é suficientemente poderosa para fazê-lo. Como imaginar um Universo onde não existe gravidade? Ou matéria? Ou energia? Mas o certo é que ele existe se a Teoria das Cordas estiver correcta. Basta para o efeito, imaginar uma infinidade de dimensões onde as cordas possam vibrar dando origem a outras variáveis além da posição no espaço, tempo, forças, energia e matéria. A imaginação pode não conseguir conceber a ideia, mas as possibilidades são infinitas. E, entretanto, o Princípio da Incerteza de John Keynes assegura já existe uma probabilidade de 87,5% de acordo com a seguinte tabela:


UNIVERSOS DO TIPO IV – As leis universais não são todas as leis possíveis

Ainda associada à Teoria das Cordas estão então os Universos mais gerais que englobam as “sopas de bolhas”. Na verdade, o termo mais correcto seria “multiverso paralelo”. Muito mais complicados de imaginar, estes novos universos podem ser construídos a partir de qualquer conjuntos de leis físicas, idênticas ou não às que regulam o funcionamento do nosso próprio Universo. Universos com as mesmas leis agrupam-se no mesmo multiverso formando vários banhos de espuma a flutuar num meio desprovido de massa, tempo, energia e força. Este meio, inclusive, também não é fácil de imaginar mas, no fundo, é o mesmo meio que “existia” em torno do ponto infinitesimal de onde nasceu o nosso próprio Universo.
Deste modo, poderão então não só existir Universos iguais ao nosso, constituído por galáxias, estrelas e planetas ou Universos inteiros desprovidos de massa. Poderão existir Universos com vida inteligente muito diferente da nossa (constituída, por exemplo, não por massa mas sim por energia a fazer lembrar as consequências da Relatividade Restrita de Einstein) ou Universos totalmente líquidos ou sólidos, ou Universos estáticos onde o tempo não corre, ou universos onde não há gravidade onde pessoas parecidas connosco  viajam pelo espaço de livre vontade… As possibilidades são diversas e a maior dificuldade aqui é conseguir imaginar ainda mais Universos diferentes do nosso ao fim de alguns exemplos (repare que eu nem me atrevi a ilustrar este tópico: “Que diabos haverei eu de desenhar?”)…! A ideia de Universo deverá então ser repensada. Deixará de constituir tudo o que conhecemos e passará a ser um pequeno conjunto de variáveis que determina o seu funcionamento (o nosso Universo terá então 11 variáveis nestas condições: as dimensões sobre as quais as “cordas de borracha” podem vibrar).

A PROBABILIDADE FINAL

Refaçamos a tabela onde vamos reunir todas as hipóteses possíveis para o modelo explicativo do cosmos onde vivemos:


Então, para quem percebe um pouquinho de ciência, não será sensato desacreditar a existência de Universos Paralelos. Afinal de contas, ao longo da nossa vida acreditamos em coisas que oferecem probabilidades muito inferiores a 92,9%. Será sensato acreditar realmente que é possível que exista outro “eu” algures no cosmos? Ou que em algum Universo (talvez neste, porque não?!) vou ganhar a lotaria na semana que vem? Ou ainda que, no futuro, comparecerei em reuniões de negócios com outros seres num outro Universo longínquo? A resposta é: CERTAMENTE QUE É! Engane-se quem pense que este post é feito a partir de ficção científica. Para quem se recusar a acreditar, deixo aqui o meu conselho: prepare o seu coração para o que der e vier, pois, um dia, irá convencer-se do contrário, nem que seja num Universo diferente…